Flores

Eu estou diferente.
Não sei se é a "medula recauchutada", se é o que tenho vivenciado nesse período, mas estou diferente sim.
Se eu disser que não penso em morte, estarei mentindo, impossível não pensar, pois é contra ela a minha luta diária e tenho visto muitos perderem essa batalha. Não penso que vou perder, pelo contrário, me sinto a cada dia caminhando para a cura definitiva, na verdade já estou curada, agora é só reforçar essa cura. A leucemia não existe mais. Essa medula sabe trabalhar! Ela só tem que ter tempo para ficar verdadeiramente forte e poder funcionar perfeitamente até o fim dos meus dias e quer que eu a trate bem, não a trate como antigamente.
Mas, voltando a falar em morte e vida, eu acredito que quando chega a hora, não tem como escapar. A gente tropeça na pedra... e tchau!
Mas é triste ver meus colegas de "luta" perdendo. E não tem nada que possa explicar o motivo que essa ou aquela pessoa perdeu. Não é idade, sexo, cor, religiosidade, família, condição social... NADA! Simplesmente tinha que ser... era o momento daquela pessoa. Mas nós, que ficamos, trocamos olhares que eu não sei se são de alívio (porque não fomos nós) ou se de dúvida (vamos conseguir?)...
Mas, aí sempre aparecem aqueles que já estão transplantados há meses, anos... e nós voltamos a nos motivar...Aposto que é jogada dos psicólogos de lá.
Eu, por minha vez, nesse período de "isolamento", tenho pensado muito na minha vida, nos valores, nas minhas amizades, em tudo.
Eu fiquei o fim de semana fazendo uma "faxina" no meu Orkut. De 250 amigos + ou -, eu fui para 200.
Assim estou fazendo na minha vida real (famosa RL).
Tenho vontade de deixar um testamento assim:
"As pessoas que estiveram muito ocupadas, cansadas, sem condições de me dar um telefonema, mandar um e-mail, um bilhetinho, um carinho, uma visita, alguma atenção, FAVOR NÃO comparecerem ao meu velório ou enterro". Flores só aceito em vida, depois disso, NÃO!"

Não é por nada, eu entendo que todos estejam na loucura dessa cidade enlouquecida, mas também me incomodo muito quando vejo que em velórios e enterros todos arranjam "tempo" para ir... mesmo quando cai em plena segunda-feira, como foi o caso da minha amiga Silvia. Mas também, é como minha irmã disse: se o velório/enterro fosse mais demorado... com certeza o caixão seria fechado somente pelos funcionários do cemitério. Tudo tem que ter um tempo de duração...
Dá pra me entender?
Pode ser, que quem ler isso, possa achar que:

1) Que eu estou amarga ou melancólica.
* Não, não estou.

2) Se sentirem cobradas...
* Também não estou cobrando ninguém.

Estou apenas constatando.

E minha constatação não é só o que estou sentindo na pele... ela já vem há algum tempo. Desde a morte do meu pai, que foi a perda mais dolorosa que tive na vida, quando eu vi aqueles primos, tios e tias que praticamente nem reconhecia mais, por tantos anos de distanciamento. Isso me incomoda muito.
Mas eu também agi assim MUITAS vezes.
Não me culpo, mas se não mandei as flores em tempo... não as mando mais.

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